Em cooperação científica internacional com a Universidade de Bergen, na Noruega, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) integra o desenvolvimento de uma plataforma pioneira para monitorar os efeitos do Super El Niño em escala global. Além de mapear indicadores meteorológicos e oceanográficos, a ferramenta analisa como veículos de imprensa de todo o planeta cobrem os desdobramentos do fenômeno.
Batizado de Climate News Watch, o sistema opera como um painel interativo e gratuito, criado em conjunto com o Bjerknes Centre for Climate Research. A plataforma processa diariamente milhares de manchetes internacionais e avalia a correspondência entre o tom do noticiário e a severidade real das ocorrências registradas.
A frente de pesquisa catarinense é coordenada pela professora Regina Rodrigues, referência em estudos oceanográficos e eventos climáticos extremos. Segundo ela, é apenas com essa tecnologia que se torna possível realizar esse tipo de levantamento, já que não existe nada parecido, e a ferramenta é importante porque permite às pessoas consultar a situação atual e os impactos globais do fenômeno.
A varredura dos conteúdos noticiosos emprega modelos de inteligência artificial capacitados para rastrear registros de enchentes, estiagens severas, ondas de calor, incêndios florestais, ciclones, tempestades e perdas na agricultura e na pesca em mais de cem idiomas. As menções alimentam um termômetro cujo índice se eleva conforme aumentam as citações a alertas meteorológicos, destruição estrutural e vítimas fatais.
Para checar a precisão da repercussão jornalística, a ferramenta confronta os dados da mídia com os desastres computados pelo GDACS (Global Disaster Awareness and Coordination System), mecanismo conjunto da ONU e da Comissão Europeia. As informações consolidadas ficam disponíveis em um mapa interativo aberto, permitindo ao público sobrepor dados de satélite sobre temperatura da superfície do mar, cobertura de nuvens, ventos e precipitação acumulada.
Para a equipe de cientistas, o avanço central do projeto está na consolidação de uma base histórica unificada, já que perturbações atmosféricas costumam ser analisadas isoladamente de seus custos sociais e econômicos. Ao catalogar as ocorrências com filtros de país, data, tipo de evento, estimativa de mortes e causas declaradas, a base pretende responder a questões estratégicas sobre o volume de recursos públicos gastos em prevenção e reconstrução, a sobrecarga nos sistemas de saúde e a exatidão com que as reportagens correlacionam desastres locais à dinâmica do El Niño.
Segundo Regina Rodrigues, a ferramenta continuará sendo usada mesmo após o fim do El Niño, já que a coleta desses dados pode gerar uma ciência mais avançada e de grande importância para a sociedade, permitindo identificar melhor esses impactos. Além disso, qualquer pessoa pode utilizá-la, já que também é um produto voltado à sociedade.
Fonte: ND Mais
